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O futuro é biopunk

O pioneiro da cibercultura R. U. SIRIUS fala da Mondo 2000, a mais cult das revistas. E diz como vê o futuro
Por Marcelo Barbão

Há 15 anos, você criou a primeira revista de Cibercultura, a Mondo 2000. Hoje, o que mudou na Cibercultura, se é que um dia ela realmente existiu? Já faz uma década que a Mondo acabou, e muitas coisas mudaram. A Web não existia. Nós trabalhávamos com sites baseados em texto, em grupos de discussão teóricos: último impacto da Realidade Virtual, tecnologias relacionadas com o cérebro, biomutação, robótica avançada… Era uma cultura de antecipação do futuro, mas também uma cultura real-time.

As corporações ainda estavam começando a perceber as novidades. Fiquei chocado quando comecei a encontrar muitas das opiniões típicas da grande mídia na Internet. Mas é claro que existe uma cultura Net, uma cultura geek, uma cibercultura, technocultura, ou como você quiser chamá-la. Ela foi e é um fenômeno real. Mas a cultura de hoje é obcecada principalmente por questões real-time como open source. Porém, há uma outra cultura emergente, feita de pessoas que vêem a mutação evolucionária que surgirá em uma década ou duas, organizando-se ao redor do NBIC – nanotecnologia, biotecnologia, informação e ciência cognitiva.

Geek – Com as transformações da Internet, você acha que a idéia original de comunidade e rede entre pessoas ainda vive?

R.U.Sirius – Sim! Ela está viva e sempre em mutação. Agora, existem essas redes sociais que são frustrantes e desinteressantes, já que não há muito espaço para conversas. É mais relacionado a colecionar uma rede de amigos, mas elas podem ter um aspecto utilitário: abrem espaço para conectar pessoas para fazerem negócios, política, encontros, festas. Vivemos tempos pragmáticos, de muito desemprego e deterioração social.

Geek – Sempre existiu uma rivalidade entre a Mondo 2000 e a Wired. Agora, várias das revistas de Cibercultura, como a Shift, acabaram. E a própria Wired mudou completamente seu conteúdo. Você acha que ainda existe espaço para uma revista de cibercultura fora da Internet?

R.U.Sirius – Eu acho que a cultura da Internet está muito bem coberta dentro da própria rede, e não há mais nenhuma novidade. Creio que a próxima grande revista de technocultura irá refletir a cultura NBIC. Ela será “biopunk”.

Geek – Recentemente, tivemos a onda de blogs, fotologs e, agora, videologs. Você acredita que essa nova geração seja egoísta?

R.U.Sirius – Não sei se essa ou qualquer geração é realmente mais egoísta do que a anterior. É difícil fazer esse tipo de declaração ampla. Eu acho que o fato de as pessoas terem tanto poder de selecionar o que realmente as interessa pode produzir um tipo de narcisismo cerebral. Mas essa descentralização também tem vários aspectos positivos,reduzindo o poder da grande mídia sobre as mentes de um número cada vez maior de indivíduos.

Geek – Muitos geeks vêem a Internet como um campo de batalha entre as grandes corporações, que buscam seus lucros, e os indivíduos, que querem se comunicar entre si…

R.U.Sirius – Essas são dinâmicas enormemente complexas e é preciso acrescentar aí uma terceira força, que são os governos, mas no geral, eu acho que a ameaça de domínio corporativo total foi diminuída com o colapso da bolha no mercado de ações. A Internet, como um ambiente para ganhar dinheiro, foi substituída. Para mim, a questão principal é: será que as corporações, combinadas com o poder estatal, QUEREM eliminar os espaços sociais livres, a comunicação independente, etc.? Outro ponto é que, com os excessos nas restrições de direitos autorais, talvez os provedores não queiram mais hospedar fontes de comunicações não-convencionais. Há, com certeza, vários casos nas cortes dos EUA que poderiam ameaçar vários editores independentes e baseados na Net.

Geek – Você vive em São Francisco. Qual é a conexão entre os hippies dos anos 60 e a Cibercultura dos 90 que se desenvolveu na mesma cidade?

R.U.Sirius – Na verdade, foram as mesmas pessoas. E não só em São Francisco, mas em todo o Silicon Valley. Eu dirigia uma revista neopsicodélica no final dos anos 80 chamada High Frontiers. Nossos maiores fãs e apoiadores eram as pessoas que estavam fazendo os softwares e hardwares que iriam definir a próxima economia. A história da contracultura “vazando” para a cultura digital remonta ao começo dos anos 70. O grupo hippie radical prankster defendia a prática do phreaking, hackeando os telefones para fazer chamadas gratuitas. Podemos nos lembrar também de um grupo de freaks de Berkeley, na Califórnia, que começou algo chamado “Community Memory”. Era uma comunidade de loucos por computadores que incluía Steve Jobs e Steve Wozniak, criadores do primeiro computador pessoal, o Apple.

Geek – A questão do GNU/Linux e da ideologia Free Software se desenvolveu durante os dias da Mondo 2000, e ganhou muita força durante a última década.O que representa para você esse movimento?

R.U.Sirius – Free software, open source, assim como as tecnologias P2P e a ética hacker são, no melhor dos possíveis mundos, modelos da próxima economia: a “economia da doação”. A próxima onda da tecnologia, não só de informação, mas também de biotecnologia e nanotecnologia, está relacionada com infi nita replicabilidade. A produção física vai começar a mimetizar os aspectos replicáveis de tecnologia de informação: se alguma pessoa tem algo, qualquer um pode acessar e também pode ter. Talvez o mais importante é que a atitude open source/hacker está se espalhando.

Geek – O movimento Cyberpunk desenha um futuro tenebroso e complicado para a humanidade. Como você acha que será o amanhã do nosso planeta?

R.U.Sirius – Esta é uma pergunta difícil para qualquer um. Parece que vários desastres podem acontecer de forma inadvertida: falta de água, desastres com o clima, epidemias,guerras, mas o futuro sempre nos surpreende. Em outra década, todo mundo pode estar gritando sobre uma nova utopia estilo “longo boom”, novamente. Eu suspeito que a evolução das tecnologias que mudam o mundo, como a nanotecnologia e a neurotecnologia irão, de alguma forma, continuar evoluindo, não importa quão difíceis sejam os tempos.

Geek – Por que R.U. Sirius?
R.U.Sirius – Simples: de outra forma, meu verbete no dicionário ficaria maligno…

fonte: www.geek.com.br 

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