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Triângulo das bermudas

Introdução

O Triângulo das Bermudas, ou Triângulo do Diabo, é uma região do oceano Atlântico na qual acredita-se que um grande número de aviões e navios tenha desaparecido em condições misteriosas. Os vértices deste triângulo costumam ser delimitados pela ilha de Bermuda, pela cidade de San Juan em Porto Rico e por Miami na Flórida, mas suas fronteiras são elásticas o suficiente para acomodar quaisquer desaparecimentos que aconteçam nas redondezas. Em outras palavras, de triângulo o Triângulo das Bermudas só tem o nome, assemelhando-se ora a um losango ora a uma elipse dependendo de quem faz a contagem.

Construindo o Mistério

O Triângulo das Bermudas intriga os navegadores desde os tempos antigos. Cristóvão Colombo, quando atravessava a região em direção à América, relatou o avistamento de uma bola de fogo no céu que hoje supõe-se ter sido um meteorito. Colombo também foi um dos primeiros europeus a descrever sua passagem pelo temível Mar dos Sargaços.

O Mar dos Sargaços é uma região do Oceano Atlântico coberta por um manto de sargaços (uma espécie de alga) e foi durante muito tempo a verdadeira razão de tantos desaparecimentos no Triângulo das Bermudas. Suas longas calmarias com freqüência aprisionavam os navios à vela, levando os homens a abandonar seus navios ou morrer neles. Essa paisagem desolada de navios apodrecidos vagando à deriva com suas tripulações de cadáveres capturava a imaginação dos supersticiosos marinheiros, que denominavam a região de o “Cemitério do Atlântico”.

Além de “Cemitério do Atlântico”, o Triângulo das Bermudas era conhecido por “Mar do Demônio”, “Mar dos Navios Perdidos”, “Mar das Feiticeiras” e outras variações desses temas. O nome “Triângulo das Bermudas” só foi dado bem mais tarde pelo escritor de romances baratos Vincent Gaddis. O autor, que escrevia para o popular folhetim “Argosy” (considerada a mais antiga revista pulp americana), publicou em fevereiro de 1964 uma história chamada o “O Mortal Triângulo das Bermudas”, que serviu como uma espécie de batismo para o mito. Mas foi outro escritor, Charles Berlitz, quem tornou o Triângulo das Bermudas tão popular.

Charles Berlitz (1914 – 2003) era neto do fundador das Escolas Berlitz de ensino de língua inglesa, mas tornou-se mais conhecido por seus livros abordando temas sobrenaturais como o incidente Roswell e o continente perdido da Atlântida. Seu livro “O Triângulo das Bermudas”, publicado originalmente em 1974 (no Brasil foi editado pela Nova Fronteira), vendeu mais de 20 milhões de cópias e foi traduzido para mais de 30 idiomas. Nele Berlitz descrevia os misteriosos casos atribuídos ao Triângulo das Bermudas, entrelaçando-os a outros mistérios como a Atlântida, avançadas civilizações ancestrais, deuses astronautas, abduções alienígenas, criptozoologia, a Experiência Filadélfia (sobre o que trataria em outro livro de sucesso) etc. em um grande pout-pourri sobrenatural. Bem escrito e com estilo cativante, o livro de Berlitz embalou o mistério do Triângulo para o consumo das massas.

O Mistério do Vôo 19
Vôo 19 era o nome de um grupo de cinco caça-bombardeiros TBM Avenger da Marinha americana. O Vôo decolou de Fort Lauderdale no dia 15 de dezembro de 1945 e, após um bem sucedido exercício de treinamento, desapareceu sem deixar vestígios. Para tornar as coisas ainda mais misteriosas, um dos hidroaviões de resgate enviado algum tempo depois para procurar pelos caças também desapareceu.

O desparecimento do Vôo 19 desencadeou uma das maiores operações de resgate da história. Segundo Berlitz, mais de 240 aviões, navios da Marinha, barcos da guarda costeira, iates particulares e até submarinos esquadrinharam a região das Bermudas. Nada jamais foi encontrado. “Eles sumiram tão completamente como se tivessem voado para Marte…”, haveria afirmado um dos membros da comissão que investigou o acidente.

Berlitz deu grande destaque ao caso em seu livro, enriquecendo a narrativa com histórias paralelas de pressentimentos, esquisitas coincidências e citações sensacionalistas, provavelmente retiradas dos tablóides da época. Havia, por exemplo, a mãe desconsolada de um dos pilotos desaparecidos que teria afirmado sobre seu filho: “sinto que ele ainda está vivo em algum lugar do espaço”, e um certo Dr. Manson que tinha declarado ao jornal Miami News: “Eles ainda se encontram aqui, mas numa dimensão diferente, graças a um fenômeno magnético que pode ter sido criado por um OVNI”. Com seu lugar garantido no folclore ufológico, o Vôo 19 recebeu destaque no filme “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” de Steven Spielberg. No filme os aviões são finalmente encontrados, mas no meio do deserto, e os pilotos libertados pelos alienígenas que os abduziram.


A ilustração mostra como o Vôo 19 ficou ligado ao folclóre ufológico.

Outros Casos
Pouco mais de dois anos depois, em 29 de janeiro de 1948, um antigo bombardeiro inglês, o Star Tiger, também desapareceu no interior do Triângulo das Bermudas. O Star Tiger rumava dos Açores para as Bermudas com 25 passageiros. A última notícia que se teve dele foi uma comunicação do piloto com a torre de controle informando que chegaria ao destino na hora prevista; nada indicava que alguma coisa pudesse estar errada. Depois disso o avião nunca mais foi visto. A comissão da Marinha que investigou o desaparecimento do Star Tiger foi incomumente eloqüente em seu relatório final, deixando abertas as portas para especulações sobrenaturais:

“Pode ser realmente dito que nenhum problema mais estranho jamais foi apresentado para investigação. Diante da completa ausência de qualquer evidência segura quanto à natureza ou quanto às causas do desastre com o Star Tiger, esta corte não foi capaz de mais nada a não ser sugerir possibilidades (…) O que aconteceu neste caso jamais será desvendado.”

Curiosamente, quase exatamente um ano depois, outro avião igual, o Star Ariel, também desapareceu no Triângulo das Bermudas sem deixar vestígios. Assim como o Star Tiger, nada indicava em seu último contato com o solo que algo pudesse estar errado. Outro caso semelhante foi o do avião comercial DC-3 que fazia o trajeto entre San Juan e Miami. Depois de um contato normal com a torre de controle em Miami, a apenas 80 quilômetros de distância, o avião e seus passageiros nunca mais foram vistos.

Além de aviões, há inúmeros casos de navios que ou desapareceram completamente ou que, mais misteriosamente ainda, foram encontrados sem nenhuma viva alma à bordo. Um dos navios misteriosamente desaparecidos no Triângulo das Bermudas foi o USS Cyclops (figura) que nunca mais foi visto após zarpar do porto de Barbados retornando de uma viagem ao Rio de Janeiro em 1918, no meio da Primeira Guerra Mundial. Outro desaparecimento famoso foi o do S.S. Marine Sulphur Queen, um navio tanque carregado de enxofre que desapareceu apos seu último contato próximo de Key West em 3 de fevereiro de 1963.

Berlitz relata o caso de um navio brasileiro desaparecido no Triângulo das Bermudas: o São Paulo, na verdade um navio destinado ao ferro-velho que estava sendo rebocado por dois navios rebocadores na proximidade dos Açores. Temendo ser afundado pela tempestade que se aproximava, um dos rebocadores soltou o cabo que o prendia ao São Paulo durante a noite. Na manhã do dia seguinte os marinheiros descobriram surpresos que o cabo do outro rebocador havia se rompido e que o São Paulo e sua tripulação de 8 pessoas tinham desaparecido sem deixar vestígios.

Em qualquer pesquisa que se faça sobre o Triângulo das Bermudas muito provavelmente se ouvirá falar à respeito do Mary Celeste, navio português encontrado em 1872 à deriva completamente abandonado, com suas velas içadas e seu carregamento de álcool, víveres e objetos pessoais intocados. O estranho caso do Mary Celeste é por si só um prato cheio para explicações sobrenaturais mas na verdade nada tem a ver com o Triângulo das Bermudas; o navio foi encontrado a milhares de quilômetros dali, na costa de Portugal.

As Teorias

Do trivial ao estapafúrdio, diversas teorias já foram levantadas para explicar o mistério do Triângulo das Bermudas. Aqui vão algumas das mais recorrentes.

Atlântida
A crença em uma civilização ancestral avançada técnica e espiritualmente, destruída por um cataclisma de proporções bíblicas, povoa a imaginação dos escritores desde o tempo de Platão. O clarividente americano Edgar Cayce (1877 – 1945) tornou-se famoso ao prever que os restos da cidade da Atlântida seriam encontrados nas Bahamas. Em 1968, uma formação rochosa conhecida por Estrada de Bimini foi realmente descoberta na área das Bahamas, fazendo parecer que a previsão de Cayce havia se realizado. Há quem diga que a Estrada de Bimini seja apenas uma curiosa formação natural e há quem diga que são realmente as ruínas de uma civilização antiga, mas não há nenhuma evidência que as relacione a um lendário continente perdido.

Cayce postulava que os Atlantes obtinham sua energia a partir das emanações de um tipo de cristal (Cayce também dizia que Jesus teria sido um Atlante reencarnado). Alguns acreditam que a energia latente desses cristais, hoje perdidos no fundo do oceano, poderia interferir nos instrumentos de navios e aviões ou simplesmente destruir de vez qualquer veículo em sua proximidade. Considerando o intenso tráfego de navios e aviões apinhados de equipamentos eletrônicos na região do Triângulo das Bermudas, seria de se esperar que um material capaz de provocar distúrbios eletromagnéticos já tivesse sido encontrado.

Nuvens Magnéticas
No dia 4 de dezembro de 1970, Bruce Gernon voava com seu pai em uma avião bimotor sobre o Triângulo das Bermudas quando percebeu uma nuvem de formato peculiar sobre a costa de Miami. Ao se aproximar, a nuvem formou uma espécie de tubo em torno do avião, parecendo acompanhá-lo ao mesmo tempo que girava sobre si mesma. Os instrumentos de navegação ficaram imprestáveis e o avião sumiu por vários minutos do radar do controle de tráfego aéreo mais próximo. Alguns minutos depois, quando o avião finalmente emergiu da nuvem e reapareceu nos radares, Gernom descobriu que já se encontrava sobre a cidade de Miami, algo que teria sido impossível de acordo com o tempo decorrido em seu relógio. Gernom encontrou um monte de gente disposta a acreditar na sua história e escreveu um livro sobre o fenômeno: “The Fog: A Never Before Published Theory of the Bermuda Triangle Phenomenon”, em que supunha que os desaparecimentos no Triângulo das Bermudas eram causados por nuvens magnéticas como a que engoliu seu avião. O maior problema da exótica hipótese de Germon é que ela se baseia no testemunho e na experiência vivida por uma única pessoa, sem nenhuma outra confirmação experimental até o momento.


Representação artística do efeito presenciado por Gernom

Depósitos de metano
Uma das teorias naturais construídas para explicar os desaparecimentos no Triângulo das Bermudas é conhecida por Teoria da Flatulência Oceânica (vulgarmente é claro).

Segundo esta teoria, sob o leito do oceano jazem grandes quantidades de gás metano aprisionado nos poros rochosos. Deslizamentos submarinos seriam capazes de libertar subitamente vastas quantidades deste gás que subiriam à superfície na forma de bolhas. Este gás borbulhante reduziria a densidade da água e faria um navio que estivesse posicionado acima dele afundar como uma pedra, como se um buraco se abrisse no oceano sob ele. Como o metano é mais leve que o ar, ele continuaria a subir ao atingir a superfície da água podendo afetar tanto a sustentação aerodinâmica de um avião quanto a indicação de seu altímetro (fonte) O metano poderia ainda causar uma pane no motor do avião, uma vez que esse precisa de oxigênio para que a combustão se realize (fonte). Algumas pessoas decidiram aplicar esta teoria ao mistério do Triângulo das Bermudas depois que, em 1981, uma plataforma na costa da Guatemala foi vitima do fenômeno (muto embora a plataforma não tenha afundado). Um documentário da BBC mostrou que uma profusão de bolhas poderia realmente afundar um pequeno barco ancorado, mas a experiência teve tantas limitações que seria difícil aplicá-la ao caso típico de um navio trafegando no Triângulo das Bermudas. Os pesquisadores sobrenaturais argumentam que diferentemente de uma plataforma ancorada, um navio poderia se mover para fora de um certeiro jorro de metano ou ao menos teria tempo de enviar um pedido de socorro.


Fonte: Documentário da BBC: “In Search Of Bermuda Triangle”

Anomalias magnéticas
O ponteiro de uma bússola sempre aponta para um dos pólos magnéticos da Terra, distante cerca de 2500 quilômetros do pólo norte geográfico, que é o ponto mais ao norte da Terra. A diferença entre a direção do pólo norte magnético e do pólo norte geográfico depende de onde se está no globo terrestre e é conhecido por declinação magnética. Costuma-se dizer que só há dois lugares na Terra em que o norte geográfico coincide com o norte magnético e que o Triângulo das Bermudas é justamente um desses locais.

De acordo com algumas pessoas, ao negligenciar esta bizarra anomalia magnética, pilotos e marinheiros que atravessam a região poderiam acabar perdidos. Mais do que isso, o fenômeno é geralmente citado como uma estranheza a mais no currículo do Triângulo das Bermudas; como um indício de há algo fora da ordem no local.

Os pontos em que os pólos magnético e geográfico coincidem, ou seja a declinação magnética é zero, estão sobre uma linha chamada de linha agônica (esta linha é simplesmente a linha que une os dois pólos; uma vez sobre ela a bússola que aponta para um dos pólos apontará também para o outro). A linha agônica é o melhor lugar para se estar se você é um marinheiro de primeira viagem que não sabe compensar a declinação magnética. Se a linha agônica atravessasse de fato o Triângulo das Bermudas, este seria provavelmente o último lugar da Terra em que um navegador distraído se perderia… Por isso é tão estranho que essa explicação tenha sido popularizada pela Guarda Costeira americana no FAQ que mantém há mais de 30 anos sobre o Triângulo das Bermudas.

Mas a linha agônica não cruza o Triângulo das Bermudas embora já o tenha feito no passado. Uma vez que o pólo norte magnético se move com o tempo, também a linha agônica muda de posição, aproximadamente 0,2 graus por ano na média. O mapa abaixo mostra a posição da linha agônica no ano de 2004. Repare que, atualmente, a linha agônica atravessa o Golfo do México.

Ondas gigantes
Navios que são engolidos pelo mar sem deixar vestígios não são exclusividade do Triângulo das Bermudas. Muito pelo contrário: pelo menos um navio desaparece por mês no mundo, muitos tão completamente quanto os do Triângulo do Diabo. Para eles existem outras explicações que bem poderiam também ser aplicadas à região das Bermudas. Uma dela é a teoria das ondas gigantes ou ondas anormais (do inglês “freak waves”).

Durante muito tempo se imaginou que as ondas gigantes, de 30 metros ou mais, fossem um mito do mar. No entanto recentemente ondas de mais de 28 metros foram observadas na costa da África do Sul e há evidências de que o cargueiro alemão München tenha sido varrido do oceano por uma dessas ondas gigantes, episódio que serviu de inspiração para a nova versão do filme “Poseidon”.

O clima
A causa mais plausível para os desaparecimentos no Triângulo das Bermudas é bem menos estranha do que você pensa: o imprevisível clima da região. A região das Bermudas é conhecida por suas tempestades repentinas, que vem tão rapidamente quanto vão; às vezes tão rapidamente que não deixam tempo para que um alerta seja emitido. Trombas d’água também são comuns na região e podem afundar de forma fulminante um navio ou um avião apanhados em seu caminho. A natureza também pode explicar porque freqüentemente as equipes de salvamento não encontram vestígios dos aviões e navios vitimados nas Bermudas. Para início de conversa é muito difícil, mesmo durante o dia e com tempo bom, enxergar algo no mar a partir de um helicóptero, mesmo quando se sabe onde procurar, como já demonstrou o ótimo documentário da BBC “In Search Of Bermuda Triangle”.

Ainda mais difícil do que procurar por vestígios em um local pré-determinado é procurar por sobreviventes quando não se sabe ao certo onde ocorreu o acidente. A situação piora quando a busca não é feita imediatamente após o acidente, por exemplo, quando o desparecimento é notado no final da tarde, uma vez que a corrente do Golfo, que se move com uma velocidade de até 8 km/h, espalha os destroços rapidamente. Some a este cenário o fato de que alguns dos locais mais profundos da Terra localizam-se no Oceano Atlântico na região das Bermudas e você terá boas razões para que os desaparecimentos no Triângulo das Bermudas sejam tão completos.

Mas apesar de tudo o que vimos será que há algum fenômeno, ordinário ou extraordinário, no Triângulo das Bermudas que justifique a reputação da região?

Descontruindo o Mistério

O livro “The Bermuda Triangle Mystery – Solved” (O Mistério do Triângulo das Bermudas – Solucionado) de Lawrence David Kusche, lançado quase simultaneamente com o livro de Berlitz é até hoje a obra definitiva para desconstruir o mito do Triângulo das Bermudas. Se Berlitz fundou o mistério, Kusche o trouxe abaixo.

Kusche investigou cuidadosamente cada um dos casos relacionados ao Triângulo das Bermudas, confrontando as histórias popularizadas por Berlitz com os documentos históricos e relatórios da Marinha e da Guarda Costeira.A conclusão de Kusche é que o que não foi completamente inventado por Berlitz foi no mínimo exagerado.

Por exemplo, muitos dos desaparecimentos creditados por Berlitz ao Triângulo das Bermudas nem mesmo ocorreram em seu interior. Este é o caso do Freya, que Berlitz afirma ter afundado no Triângulo mas que na verdade foi abandonado no Pacífico em 1902 e do Globemaster, que na realidade afundou na costa da Irlanda em 1951. Outros realmente cruzaram o Triângulo das Bermudas mas não se pode afirmar com segurança que desapareceram nele. Este é o caso do Atlanta, navio que, a rigor, pode ter desaparecido em qualquer lugar entre as Bermudas e a Inglaterra e do Star Ariel, que poderia muito bem ter afundado próximo à Jamaica. Segundo Kusche, se você marcar todos os desparecimentos atribuídos ao Triângulo das Bermudas em um globo verá que o Triângulo abrange quase todo o norte do Oceano Atlântico. O mágico e desbaratador de mistérios James Randi, fez ainda melhor em seu livro Flim Flam – Médiuns, ESP, Unicórnios e outros delírios: marcou em um mapa os mais misteriosos casos atribuídos ao Triângulo das Bermudas. Veja o resultado e tire suas conclusões:

Quanto aos desaparecimentos que realmente ocorreram dentro da região delimitada pelo Triângulo das Bermudas, Kusche mostrou que eles se tornam muito menos misteriosos quanto se conhece os importantes “detalhes” geralmente omitidos por Berlitz e outros autores e quando se despe as histórias de seus floreios rocambolescos que ajudam mais a vender livros do que a descobrir a verdade. Acompanhe a seguir.

Esclarecendo o mistério do Vôo 19
O tenente instrutor Charles Carroll Taylor, comandante do Vôo 19, era um piloto experiente com mais de 2500 horas de vôo, mas que acabara de ser transferido para Fort Lauderdale. Alem de não conhecer a região das Bermudas, Taylor já tinha ficado perdido em outras missões e certa vez levara dois aviões a fazerem um pouso forçado no Oceano Pacífico. É bom lembrar que voar naquela época, sem GPS e sofisticados computadores de bordo, era uma tarefa muito mais difícil. O piloto precisava estar todo o tempo atento à bússola e à velocidade do avião, medindo o tempo de vôo com um relógio para que pudesse calcular sua posição. Quando perdido, era preciso pedir socorro pelo rádio e tentar localizar um ponto proeminente no relevo, o que é presumivelmente bastante difícil em pleno oceano ou com clima adverso.

O plano da missão do Vôo 19 determinava que a patrulha saísse de Fort Lauderdale e, depois de um exercício de treinamento sobre as ilhas Hens and Chickens Shoals, retornasse à base seguindo a trajetória triangular indicada pela linha pontilhada da figura 1. As gravações das comunicações entre os aviões e a base mostram que em algum ponto do vôo Taylor descobriu-se perdido e se convenceu de que voava sobre as ilhas Florida Keys, distantes centenas de quilômetros dali, no Golfo do México. A partir daí todas as decisões que tomou foram baseadas nesta premissa.

Mas o que levou Taylor a cometer um erro tão grosseiro? Acredita-se hoje que logo após o exercício, empurrado para o norte pelo vento, os pilotos não foram capazes de ver a ilha Cistern Cay, que deveriam usar como referência do vértice de sua rota. Em vez disso confundiram-na com a Great Abaco, muitos quilômetros à frente (figura 2) e só aí mudaram de rota, seguindo para o norte. Se estivesse na rota certa Taylor deveria cruzar com a Grand Bahama à sua frente, mas em vez disso via uma grande extensão de terra que parecia ser a Bahama à sua direita. Isso o levou a concluir que as duas bússolas do seu avião estavam quebradas.


A sequência de imagens mostra a hipótese mais provável para o fato do piloto do Vôo 19 ter ficado perdido.

Ao atingir o norte da Great Abaco e mudar novamente de rota Taylor parece ter confundido a sucessão de ilhotas que via à sua direita com a formação muito similar das ilhas Florida Keys (figuras 3 e 4).

Acreditando estar no Golfo do México (figura 5), Taylor mudou o rumo do vôo diversas vezes em busca de terra firme, ignorando os avisos de seus subordinados e as instruções da base em Fort Lauderdale, conduzindo a esquadrilha cada vez mais distante da costa e para fora do alcance do rádio (figura 6).

Durante todo este tempo a comunicação com o Vôo 19 foi seriamente prejudicada pelas transmissões cubanas e pelo mau tempo que se aproximava. Mesmo assim Taylor ignorou teimosamente os repetidos pedidos da base para passar o rádio para a frequência de emergência (3000 kHz). Aparentemente Taylor temia que os outros pilotos não fossem capazes de se manter na mesma frequência e a esquadrilha não conseguisse permanecer unida. Tivesse trocado a frequência e Taylor poderia não só ter obtido um sinal livre da estática produzida pela rede cubana, como contado com ajuda mais ampla, já que todas as estações em terra estavam equipadas com a frequência de emergência mas poucas delas podiam utilizar a frequência militar reservada.

Depois de horas voando a esmo sob o tempo cada vez pior, finalmente veio a noite. Já sem combustível, os cinco aviões não tiveram outra alternativa a não ser arremeter na escuridão contra o oceano crispado pelos fortes ventos. Mesmo que os pilotos pouco experientes conseguissem realizar um pouso bem sucedido em tais condições, o TBM Avenger não era projetado para flutuar e afundaria rapidamente nas águas geladas, a centenas de quilômetros da região onde se desenrolava a maior operação de busca da história.

Kusche alega que o relatório final da Marinha concluía pela responsabilidade de Taylor no acidente, mas este foi modificado em consideração à família do piloto. Seja como for, o fato é que uma série de circunstâncias colaboraram para o acidente: o fato de que os aviões não estavam equipados com relógios (e Taylor não ter levado um relógio de pulso), a recepção ruim dos rádios dos aviões agravada pela opção de Taylor em não usar o rádio de emergência, a demora da Força Aérea, que só lançou mão dos aviões de resgate quando o vôo estava irremediavelmente fora de alcance, a extrema disciplina dos aviadores-alunos que permaneceram fiéis ao seu comandante mesmo quando estava bastante claro que ele os estava levando na direção errada, o fato do Vôo 19 ser o último vôo programado para aquele dia e, logicamente, o mau tempo.

Quanto ao avião enviado no resgate do Vôo 19 que desapareceu tão misteriosamente quanto ele, o mais provável é que tenha explodido em pleno vôo alguns minutos após a decolagem. O Martin Mariner tinha o apelido de “Tanque de Óleo que Voa” devido ao escapamento de gases em seu interior. Nas condições certas, bastaria um cigarro aceso para provocar uma explosão. De fato diversas testemunhas relataram terem visto o que pareceu uma explosão no céu na mesma posição do radar no qual o hidroavião desapareceu e vestígios de óleo na água foram encontrados no local.

Os outro casos
No mesmo dia do desaparecimento do Sulphur Queen, turistas na costa de Cuba relataram um forte cheiro acre que poderia ser atribuído a carga de enxofre do Sulphur Queen. Baseado em relatórios que apontavam para problemas estruturais naquele tipo de cargueiro, a guarda costeira apontou como uma das prováveis causas do acidente um vazamento súbito de gás, que teria impedido a tripulação de pedir socorro pouco antes de uma explosão. Bem ao contrário do que escreveu Berlitz em seu livro, vários destroços foram encontrados, como mostra a foto abaixo. Já o fato de que nenhum corpo foi encontrado não é surpresa, considerando-se que a área do acidente é infestada de tubarões.


Ao contrário do que afirmou Berlitz, o Sulphur não desapareceu sem deixar vestígios.

Já o DC-3, desaparecido a 50 milhas de Miami após um contato normal com a torre, tinha relatado problemas com suas baterias. Em vez de recarregar as baterias no solo, o piloto preferiu partir sem demora e recarregá-las durante o vôo. Não se sabe ao certo o que aconteceu, mas a comissão que investigou o acidente suspeita que logo após sua última comunicação o DC-3 teve uma pane elétrica que deixou fora de operação o rádio e as bússolas automáticas. Sem rádio, o piloto não pode ser avisado do mau tempo que se aproximava. Voar em condições de clima adverso sem rádio e sem bússolas é uma boa maneira de ficar perdido.

Para os outros desaparecimentos que ocorreram no Triângulo das Bermudas e para aqueles que certamente ocorrerão, a Guarda Costeira americana tem pronta a mais pragmática das repostas (diga-se de passagem que o texto é a mesmo há mais de 30 anos):

“A Guarda Costeira não se impressiona com causas sobrenaturais para acidentes no mar. Faz parte da sua experiência reconhecer que as forças combinadas da natureza com a imprevisibilidade do homem superam a mais imaginativa ficção científica muitas vezes por ano.”

Por fim, o golpe de misericórdia no mito: se o Triângulo das Bermudas fosse realmente uma área tão temerária à navegação e o número de acidentes ali, causados pelo clima, alienígenas ou outra coisa qualquer, fosse maior do que o de outras regiões de grande tráfego naval, as seguradoras cobrariam tarifas maiores sobre os navios que circulam na região. Mas isso não acontece. Contactada em 2000 a Lloyd`s of London declarou que não são cobrados valores maiores para os navios que circulam no Triângulo das Bermudas.

O Mar do Diabo
Algumas pessoas acreditam que o Triângulo das Bermudas não é o único lugar do mundo em que navios desapareceram em condições misteriosas. Muitos dizem que uma região à sudeste do Japão, conhecida por Mar do Diabo guarda sinistras semelhanças com a região das Bermudas, sendo tão temida pelos marinheiros quanto sua contra parte no oceano Atlântico.

O Mar do Diabo despontou no circuito paranormal depois do desaparecimento do navio de pesquisas Kaiyo Maru, em 1952. O Kaiyo Maru e seus 22 tripulantes, incluindo 9 cientistas japoneses, havia sido enviado para observar a erupção de um vulcão submarino no Pacífico quando desapareceu, provavelmente atingido pelas ondas violentas provocadas pela erupção. Três anos mais tarde um outro navio, o Shihyo Maru, perdeu o contato por rádio durante dez dias. A história terminou bem – o Shihyo Maru retornou são e salvo – mas nesse meio tempo o New York Times noticiou que “os pescadores da região (em que o Shyhyo Maru navegava) mencionavam que era como se o Diabo espreitasse à costa”. E assim nascia a lenda do temível Mar do Diabo.

Pode-se dizer que o Mar do Diabo só sobrevive hoje às custas do Triângulo das Bermudas. Ao contrário deste, os únicos incidentes estranhos atribuídos ao Mar do Diabo aconteceram entre 1950 e 1954. Nada mais foi capaz de suscitar a fértil imaginação sobrenatural nos 30 anos seguintes. O pior é que ninguém avisou aos japoneses sobre o Mar do Diabo. Kusche contactou diversas agências e organizações japonesas e parece que ninguém jamais ouviu falar no Mar do Diabo por lá. Ironicamente, quem mais alimentou o mito do Mar do Diabo durante todos esses anos foi a própria Guarda Costeira americana. Como se não já não bastasse tentar atribuir os desaparecimentos no Triângulo das Bermudas à trivial declinação magnética, por mais de trinta anos a Guarda Costeira manteve que:

A área conhecida por Mar do Diabo pelos pescadores japoneses e filipinos, também exibe as mesmas características magnéticas. A região também é conhecida pelos misteriosos desaparecimentos.

Ou seja, ao tentar desfazer um mito fizeram outro…

Conclusão

Houve uma época em que se lançar ao mar à procura de terra era quase como empreender uma viagem à Lua. Nesta época, em que a habilidade e a preparação contavam menos do que a sorte, o medo do desconhecido inspirava histórias de monstros, sereias, ilhas utópicas e civilizações avançadas. O mundo tornou-se menor, menos desconhecido e, por que não dizer, mais plano, forçando a imaginação a confinar o sobrenatural em umas poucas áreas. Veio a onda das comunicações globais, da navegação via satélite, do sensoreamento remoto, dos computadores de bordo, dos boletins meteorológicos precisos e mundo ficou ainda menor, deixando ainda menos espaço para alienígenas sequestradores e criaturas fantásticas. Não é à toa que hoje o mistério do Triângulo das Bermudas tenha se tornado um mistério antiquado e até um pouquinho incômodo para os ufólogos mais sérios.

Como dizem alguns céticos, mostre-nos um trem que tenha desaparecido entre duas estações e nós lhe mostraremos um mistério de verdade…

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